Estrelas, 2020

óleo sobre tela

140 x 180 cm

Chuva, 2021

óleo sobre tela

140 x 180 cm

Quadro, 2020

óleo sobre tela

140 x 180 cm

Paisagem Montanhosa, 2020

óleo sobre tela

140 x 180 cm

Personagem, 2020

óleo sobre tela

130 x 120 cm

Batman, 2020

óleo sobre tela

140 x 180 cm

Figura Surrealista, 2020

óleo sobre tela

40 x 30 cm

Figura expressionista, 2020

óleo sobre tela

40 x 30 cm

Contraste, 2020

óleo sobre tela

40 x 30 cm

Seio, 2020

óleo sobre tela

40 x 30 cm

Coração, 2020

óleo sobre tela

40 x 30 cm

Mapa, 2020

óleo sobre tela

40 x 30 cm

Anjo, 2020

óleo sobre tela

40 x 30 cm

Caverna, 2020

óleo sobre tela

40 x 30 cm

Geometria, 2020

óleo sobre tela

40 x 30 cm

Crânio, 2020

óleo sobre tela

40 x 30 cm

Rosto, 2020

óleo sobre tela

40 x 30 cm

Engrenagem, 2021

óleo sobre tela

40 x 30 cm

 

Álbum Branco

Certa vez, escrevi que Antonio Malta Campos é um artista de insurgência continuada. Vou além: quebra constantemente os métodos formais implicados no fazer pictórico, no traço do desenho, no risco do croqui ou mesmo na miscelânea anárquica de formatos e técnicas. É desse caminho tortuoso e diverso, porém de controle, que Malta constrói as paisagens e os retratos caóticos e viscerais apresentados nessa exposição. O que se vislumbra, independente da escala do trabalho, pode ser também sonhos, investigações, perspectivas de um futuro tenebroso ou catastrófico. A paisagem total anunciada é a formulação de um caótico e impuro álbum branco.

Entre controle e insurreição ou domínio e incerteza, o artista estabelece seu movimento pendular que define os caminhos de sua produção artística, confabulados em telas, papéis e cadernos. Já nesse contexto expositivo, o foco são suas pinturas em duas dimensões distintas: oito pinturas maiores e dezesseis menores. E não se trata apenas de uma alternância formal de tamanho: essas obras são mergulhos em cores, traços, formas e figurações dos mais diversos: se as de maior dimensão – com algumas pequenas variações de tamanho – sugerem a estrutura da paisagem muito distante do real ou da mimetização de qualquer horizonte preciso, as de menor dimensão trazem especulações de cor e estrutura, corpo e forma que podem ter saído de um caderno de projeto arquitetônico, de um doodle despretensioso, do delineamento de um corpo, dos estudos das composições do alto modernismo ocidental ou até mesmo dos esboços de uma história em quadrinhos.

Apesar de identificar essas duas categorias materiais de suporte traduzidas pelo uso da tinta óleo, a linguagem do artista traz, entretanto, como novidade, um novo fôlego expressivo, inflamado por uma presença matérica mais incisiva e volumosa. Tudo por hora está em demasia: é mais tinta, é mais mistura, é mais conflito de cor e forma, é mais figuração sugerida, é mais estrutura em construção ou desmoronamento, é mais contaminação, impregnação e derramamento. São também bichos que se insinuam, o fogo que se contrapõe ao verde, a pulsão de vida do encarnado que duela com a escuridão, as vísceras, seios e veias que se acomodam ou invadem o conforto exterior, e muito mais. É até mesmo um Batman solitário que parece surgir comicamente para um salvamento impossível.

Paro por aqui nessas sugestões de leitura das grandes telas e convoco uma mirada cuidadosa para as pinturas de menor dimensão. Nos últimos anos de sua trajetória, Malta tem ritualizado seu cotidiano de trabalho na confecção de obras bidimensionais de menor tamanho, constituindo um procedimento próprio de criação e execução. Desde sua participação na Bienal de São Paulo, as “Misturinhas” –composições em que desenho, pintura e colagem se confundem –ganharam notoriedade e formularam uma espécie de moto contínuo no labor processual do artista. A aparente displicência que elas sugerem, escondem uma força narrativa que se alcança quando apresentadas em conjunto. Essa força ganha um novo respiro com a reunião de pequenas pinturas em óleo que, em certo sentido, guardam alguma semelhança com os gestos e temas das tais misturas. Entretanto, se olharmos atentamente para cada uma delas há clara indicação de estudo, composição, esboço ou croqui.

Antonio Malta Campos é arquiteto de formação, da FAU USP – lugar de onde menos se formam estritamente arquitetos. Por isso também sua forma de notação é sempre o desenho. Não falo aqui numa percepção precisa ou naive do desenho, mas ele como um dispositivo para que nenhuma ideia se perca. E se eventualmente uma ideia ou uma formulação for perdida, que seja no resultado final de uma composição pictórica. Essas pequenas pinturas merecem uma aproximação individual pelo olhar, nos levando às lembranças e associações imagéticas do repertório de cada um de nós. Ao longe, em conjunto, a linha de paisagem composta por todas elas insinua uma longa partitura musical, arranjo por arranjo, descortinando um universo poético de erudição e de cultura popular.

O que acentua ainda mais a questão expressiva e visceral dessas novas pinturas é o exercício de titulação que o artista constitui pela primeira vez de maneira tão incisiva. Cada composição ganha palavra em sua identidade, o que inaugura na produção do Malta um outro jogo pendular: a complementariedade ou o contraste entre palavra e texto. É com esse novo dado de impureza que se deve olhar para o trabalho de Malta Campos, atentando para as figuras de linguagem que agora se aplicam.

Nessa altura do texto, você deve estar se perguntando: do que se trata enfim essa anárquica paisagem pictórica definida como álbum branco? Pois bem, na história da cultura recente duas obras musicais, distanciadas apenas de cinco anos, marcaram o universo da cultura contemporânea: o White album dos Beatles, que ganhou esse nome por conta da capa branca sem qualquer identificação concebida por Richard Hamilton, e o álbum branco de João Gilberto, que também recebeu esse nome pelo domínio branco de sua capa e pela pureza da audifilia do disco. O primeiro – um disco de caráter experimental, uma patchwork de intenções sonoras, aforismos, contrastes e riqueza melódica e lírica –, respondia ao contexto do mundo em crise e da própria banda em crise. O segundo, por sua vez, trazia na pureza e na constância cíclica da voz e do violão de JG uma espécie de síntese contemporânea da diversa música moderna brasileira.

Malta foi em sua vida atravessado pelos dois discos. E me arrisco a dizer que um pouco de um e de outro se encontra nesse universo pictórico que o artista nos apresenta. A diversidade, a riqueza de contrastes e suas indefinições se assemelham ao ambiente sonoro aparentemente caótico do primeiro disco, mas que se amalgama com poder de síntese. Ao mesmo tempo, o amplo espectro de referências do artista consegue sincronicamente se aproximar de uma síntese também não tão explícita como no segundo disco. A própria ideia do branco pode indicar tanto o começo como o fim de algo. Está dado aqui, portanto, o Álbum Branco de Antonio Malta Campos que pode ser um caderno que se olha página por página ou uma parede expositiva para qual alguém se depara na escala do corpo.

 

Diego Matos

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