Albers, 2020

datilografias à máquina sobre algodão cru e papel carbono, díptico

59,5 x 47,5 cm / 60,5 x 49,5 cm

Rimar, 2020

datilografias à máquina sobre algodão cru

33 x 23 cm / 49,5 x 39,5 cm

Caça palavras, 2020

datilografias à máquina sobre algodão cru

40 x 42,5 cm / 56,5 x 59,5 cm

Linear à própria sombra, 2020

datilografias à máquina sobre algodão cru e papel carbono

45 x 46 cm / 61,5 x 61,5 cm

Espaço Entre, 2020

datilografias à máquina sobre algodão cru

25,5 x 20 cm / 42 x 36,5 cm

Poema, 2020

datilografias à máquina sobre algodão cru

74 x 38 cm / 97 x 61 cm

Malhas, 2020

tricô à máquina com linhas de algodão e lã acrílica

163 x 186,5 cm

Malha Http:, 2020

tricô à máquina com linhas de algodão e lã acrílica

24 x 18 cm

Macrocélula, 2020

acrílica sobre tela, recorte e costura

165 x 186 x 20 cm

Macrocélula, 2020

acrílica sobre tela, recorte e costura

188 x 202 cm

 

Antropologia do Entrelaçamento

O campo da produção têxtil, em suas práticas artesanal, industrial e artística, é recoberto por concepções estratificadas e fetichizadas. No senso comum, está circunscrito ao universo feminino, doméstico e da manualidade, ocupando, culturalmente, um lugar da sensibilidade, mas não central.  Mesmo no que se estabeleceu historicamente como referência em termos de experimentação e ousadia, como o ensino de Bauhaus considerado redefinidor da função social da arte e do artista, o preconceito foi reiterado e só mais recentemente revisado na análise das contribuições da escola. 

Como projeto de desfazer territórios e de reterritorialização de concepções, é necessário pensar em estratégias e táticas que ultrapassem as práticas e narrativas históricas e suas reverberações contemporâneas. Não é casual a conexão com Bauhaus, já que um nó importante na trajetória de André Azevedo é seu meticuloso e aprofundado estudo sobre Anni Albers, os impedimentos que a artista encontrou - por ser mulher - naquele ambiente de formação e na leitura atenta de seus comentários técnicos sobre o tecer, considerado por Azevedo um pensamento sobre a própria constituição do pensar.

Nesse diálogo, Azevedo situa de forma crítica sua obra em relação à influência da arte e do design bauhausiano em contexto local, inclusive em práticas reconhecidas como caracterizadoras da arte brasileira em campo internacional, - as experiências concretas e neo-concretas. Também há vínculo com a presença e influência de Max Bill no Brasil. Sua participação em eventos do Instituto de Arte Contemporânea do MASP e a premiação na primeira Bienal de São Paulo, no início da década de 1950, têm impacto direto no movimento Concreto e seu desenrolamento neo-concreto. Baseado em princípios matemáticos, geométricos e racionais, o movimento propaga a herança europeia na arte brasileira das décadas de 1940 e 1950, algo que, nos dias atuais e no Brasil, é revisado a partir do filtro da influência das culturas indígenas e africanas, também carregadas de visualidade organizativa geométrica, mas não limitadas pelo prazer formal,  e sim com significados entranhados na cultura de cada um dos grupos. 

Esse ponto de vista contemporâneo em direção aos modernismos se configura como tensão e desconfiança, já que da perspectiva atual as promessas de utopias modernistas se revelaram revolucionárias, porém restritas ao olhar europeu, masculino, heteronormativo e branco. Mas se não é possível cobrar essa coerência do passado alinhado aos propósitos contemporâneos, tampouco é possível evitar um sentimento de traição, de promessa radical não cumprida. Azevedo estabelece diálogos intergeracionais com essas promessas dos passados modernistas europeu e brasileiro e refuta suas utopias. Mergulha nos modernismos racionalistas e geométricos e os desconstrói, ou desfia a narrativa já tecida, material que vai servir para novas outras. 

Para a presente exposição, André Azevedo apresenta exemplos das séries Macrocélulas, Poemas e Malhas, que apontam para o enquadramento proposto pela racionalidade modernista em compasso de desconstrução. No plano de desterritorialização dessas concepções que propõe revisar, muito além da qualidade sensorial e do impacto visual que as obras operam no visitante da exposição, há um exercício permanente por parte do artista em entranhar-se na experimentalidade do universo têxtil e propor uma vivência e renomeação do mundo a partir daí. Como um antropólogo, o artista oferece ao visitante o desapego das familiaridades cristalizadas convidando o interlocutor a reelaborar seu pensamento a partir dos sentidos. Oferta que Azevedo posiciona em origens das histórias, da arte e pessoal do artista que, filho de um sericultor e de uma artesã têxtil, em uma família interessada na sensorialidade dos tecidos, busca fugir da noção de narrativa linear emblematizada na linha do tempo e tenta reconstruí-la como texto/tecido. Malhas, realizado a quatro mãos com a mãe do artista, se desenvolve a partir da tradição do tecer, desde seu planejamento matemático até à execução final, demonstrando sua afinidade artesanal com as lógicas de programação computacional e das redes virtuais. Poemas instaura a relação tecido/texto, recuperando as palavras como imagem e significado a partir dessa mesma relação. 

Em seus textos e entrevistas, Azevedo aponta para a escassez de reflexões que abordem a tecitura para além dos condicionantes restritivos, para além da valorização das práticas têxteis no contexto da arte contemporânea. O que propõe com sua obra é transpor esses limites e permitir que as materialidades provoquem um sentimento de presença corporal, que define a condição humana. Nesse sentido, seu trabalho da série Macrocélula avança como uma grade dos designers modernistas para o espaço, não como organizadora desse mesmo espaço como pretendiam os arquitetos modernistas, mas como estabelecimento de um ambiente de desconstrução e esgarçamento da matéria têxtil em sua extensão temporal e seu escoamento e irreversibilidade. O artista mergulha e exibe um mundo de metáforas sobre os fios, seus processos de elaboração e seus resultantes como tecidos e textos e, nessa vivência, reflete sobre a vida contemporânea e principalmente sobre as histórias da arte em suas múltiplas referências. 


Mirtes Marins
 

São Paulo

rua sarandi 113A jardins
01414-010 são paulo sp

+55 11 3062-8980

segunda a sexta, 10h às 16h sábado, 10h às 15h
aberto com hora marcada

Para agendar uma visita, clique aqui.



Curitiba

alameda dom pedro II 155 batel
80420-060 curitiba pr

+55 41 3232-2315

segunda a sexta, 10h às 16h
aberto com hora marcada

Para agendar uma visita, clique aqui.




Simões de Assis - Todos os direitos reservados 2020